Checho Gonzales além da Gastronomia

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Sexta, 06 de setembro de 2013

Por Ives Berger
Diretor do El Guia Latino

A impressão que passa o Chef Checho Gonzales na mídia é de uma pessoa séria, de olhar reservado, mas tudo isso fica para trás quando se conhece a maravilhosa pessoa que está por detrás da fama e das tatuagens.

Checho nos recebeu em sua casa e conversou com El Guia Latino de forma informal e profunda, tocando temas como sua infância e até o preconceito, aqui sua historia:

Checho chegou ao Brasil, à cidade de Rio especificamente nos anos 70’s, onde viveu por 4 anos, mas no ano de 77 seu pai, por motivos de trabalho, mudou-se junto com a família para São Paulo.

Em São Paulo,  passou o resto de sua infância e adolescência no bairro de Jabaquara, foi aí também onde conheceu o preconceito que infelizmente não era e não é exclusividade de lá, mas ele não faz um drama disto, ele soube e sabe, de seu jeito, lidar com isto.

Ele conta que nessa época a imigração não era econômica e sim política, devido as ditaduras que se espalhavam na América Latina.

A cozinha entrou na vida de Checho quase que por acaso, depois de uma viagem a Europa, onde ficou 2 anos, ele voltou ao Brasil onde sem saber o que fazer da vida, foi trabalhar no bar de um amigo, foi aí que descobriu neste universo da cozinha sua vocação pela gastronomia mas também pelos negócios, Checho virou sócio do bar.

No ano de 99 trabalhou com o famoso Chef Alex Atala, do qual Checho já era amigo e de quem fala com muito carinho.

A cozinha sempre esteve presente na vida de Checho, mas não exatamente nas panelas, na sua infância, na Bolívia, foi na cozinha que aprendeu a conversar, ele conversava enquanto a mãe cozinhava os típicos pratos bolivianos, a tradição continuou no Brasil, Checho nos confessou que a mãe indiretamente o influenciou no seu trabalho de agora, ele diz, “ Nos primeiros anos de imigrantes em São Paulo, minha mãe não encontrava os ingredientes para fazer a comida boliviana, assim, ela teve que se adaptar” e isso é justamente o que Checho faz com sua comida hoje, ele a adapta, a reinventa, “Se eu quero comer comida Boliviana, tenho que ir à Bolívia”, afirma, “Aqui eu sou imigrante, tenho que me adaptar” concluiu.

Quando perguntamos sobre sua comida preferida, ele diz que como tudo na vida, depende do momento, tem dias de peixe, de carne, mas ao insistir para se decidir por algum prato da infância ele fala dentre outros sobre o “Falso Conejo” (Falso Coelho), ele conta com um sorriso porque o prato é chamado assim, na Bolívia na época da conquista, o povo oferecia aos espanhóis este prato afirmando que era carne de coelho, sendo na verdade carne de cuy (uma espécie de porquinho da índia), Checho nos olha e brinca; já sabem, cuidado na hora de pedir na Bolívia o prato “Falso Conejo”.

Checho emociona-se, de forma contida, quando fala de seu aporte a comunidade latino americana em São Paulo, contou que pediu à Gastromotiva Brasil em um de seus projetos como contrapartida, que ofereçam para os imigrantes latino-americanos que vivem em situação vulnerável, um Curso Profissionalizante de Cozinha, estas vagas foram divulgadas por nosso portal El Guia Latino e foi um sucesso dentro de nossa comunidade e um grande aporte de Checho.

Enquanto conversávamos, ele ia mexendo com outra de suas paixões, o skate, ele confessou que é a sua terapia, é o que o relaxa. No final da entrevista, quando a noite já estava instalada na casa, lhe pedi que me desse uma frase final, ele não soube responder logo de cara, mas continuamos conversando e me diz: Os latino-americanos temos um ponto em comum, nós somos um povo oprimido, por isso sempre estamos lutando”, logo após dizer isto, lembrou da frase que sua avo lhe diz antes de partir de casa:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis” de Bertold Brecht.

Foi com esta frase e com uma abraço sincero que nos despedimos, mas não do famoso Chef Checho, e sim do menino Checho, que ainda brinca de skate e conversa como o fazia na cozinha com a mãe.