Entrevista com o diretor argentino Juan Manuel Tellategui: “Artistas têm de dialogar para não perder sua voz”

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Quando chegou ao Brasil, em 2011, o ator, diretor e dramaturgo argentino Juan Manuel Tellategui, assim como tantos outros imigrantes, sabia dizer poucas palavras em português. Foi fazendo aulas, estudando teatro e, claro, na convivência diária com brasileiros que dominou o idioma e também se inseriu na vida artística do novo país.

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Cinco anos depois, escreveu e dirige sua primeira peça de teatro em São Paulo, Hermanas Son las Tetas, em cartaz na SP Escola de Teatro (praça Roosevelt, 210, centro), toda sexta e sábado, 21h30, e domingo, 18h, com entrada a R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia, até 25 de outubro de 2015.

Na obra, as brasileiras Lauanda Varone e Liza Caetano interpretam Angustias e Magdalena, duas irmãs atrizes rivais que tiveram fama na infância e que precisam conviver para tentarem retomar a glória de outrora.

A peça é uma homenagem ao próprio teatro, já que comemora os 20 anos de carreira de Tellategui, iniciada em Zárate, sua cidade natal na Argentina, onde fez teatro por cinco anos com o diretor cubano Luis Enrique Pacheco, até se transferir para Buenos Aires, onde atuou nos palcos portenhos por dez anos e também fez cinema, até mudar-se para o Brasil.

Nesta entrevista exclusiva ao El Guia Latino, Tellategui fala mais um pouco sobre sua obra e as dificuldades de se fazer teatro na América Latina.

El Guia Latino — Sobre o que fala a peça Hermanas Son las Tetas?
Juan Manuel Tellategui — A peça fala da relação de duas irmãs antagônicas, Angustias e Magdalena. De alguma maneira, remete a uma passagem do livro Martín Fierro, um clássico da literatura argentina de José Hernández, que diz: “Los hermanos sean unidos, porque esa es la ley primera, tengan unión verdadera, en cualquier tiempo que sea, porque si entre ellos pelean los devoran los de afuera”. A relação destas “hermanas” também pode funcionar como analogia para outras relações.

El Guia Latino — Por que escolheu as atrizes brasileiras Lauanda Varone e Liza Caetano para serem as “hermanas”?
Juan Manuel Tellategui — São atrizes criadoras muito potentes e talentosas e, sobretudo, comprometidas com o trabalho. Cada uma vem de uma linha estilística teatral diferente e isso me interessou, a priori, como uma das qualidades para estabelecer o embate dessas “hermanas” em cena. Já que a peça se vai narrando no transcurso de um ano na vida destas irmãs, que pretendem retomar suas carreiras de atrizes trabalhando juntas, sem poder decidir  qual é a melhor via para que isso suceda. Ainda conto com artistas talentosos na parte técnica, fazendo comigo os bastidores da peça: Flávia Servidone, Osvaldo Steavnv, Clara Caramez e Warllen Martins. Além dos 12 performers que participam da obra, um em cada sessão.

El Guia Latino — Você escreveu a peça em português ou em espanhol?
Juan Manuel Tellategui — Escrevi em português, porque a peça é apresentada no Brasil e se trata de estabelecer um diálogo com o público brasileiro. Se tivesse feito em espanhol, eu teria criado algum tipo de fricção na comunicação e não era esta a intenção. O intercâmbio de experiências se dá por outras vias.

El Guia Latino — Sua peça fala das dificuldades de se fazer arte na América Latina?
Juan Manuel Tellategui — A peça fala das dificuldades de se fazer arte de forma geral, creio que este é um sintoma que também experimentamos na América Latina. Em mundo cada vez mais orientado pelo entretenimento, outros tipos de conteúdo ficam relegados a possibilidades praticamente exclusivas. Disso também fala a peça, de como artistas têm que se flexibilizar cada vez mais para poder dialogar com novas tendências sem perder sua voz.  Artistas têm de dialogar para não perder sua voz.