PESQUISA: O BRASIL SOB O OLHAR DOS EMIGRANTES CUBANOS

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Por Prof. Dr. Felipe Chibas Ortiz (Professor, na USP)

No evento Nós a cidade teve um espaço para debater o tema dos emigrantes organizado pela Cidade Lúdica na UNIBES Cultural nesse sábado 11 de junho, no qual teve destacada participação o diretor do site El Guia Latino, Ives Berger. Em este encontro se debateram assuntos relacionados com o tema principal desta artigo: as Barreiras culturais à Comunicação que enfrentam os emigrantes.

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Prof. Dr. Felipe Chibas Ortiz (Professor, na USP)

A seguir algumas anedotas dos emigrantes cubanos residentes em Brasil que entrevistamos para a presente pesquisa:.

Sujeito 1 – J. A., 23 anos, Técnico, 3 anos morando no Brasil

“Um dia fui a procurar emprego e não me aceitaram porque não falava o idioma mesmo que no trabalho não precisava falar português, já que não era um trabalho com público.”

Sujeito 2 – E. P., 48 anos, Professor Universitário, 16 anos morando no Brasil

“Recebi uma carona de um colega, professor universitário e para deixar ele mais confortável fui e abordei o carro no assento de trás. Isso foi mal visto pelo colega porque achou que estava minimizando ele, tratando-o como motorista. Nunca mais nós falamos.”

Sujeito 3 – R. B., 39 anos, Camarografo de cinema, 3 anos morando no Brasil

“A primeira vez que fui num boteco, eu tranquilo pensando que ia para um lugar tranquilo. Qual no foi minha alegria ao entrar e ver o escândalo e o barulho dentro. Risada por todo lado, histórias, abraços e beijos. Enfim, me senti em casa, como si estivesse com meus amigos em qualquer esquina de Habana.”

Como se pode observar nessas três anedotas, as diferenças e barreiras culturais à comunicação estão presentes nos dois primeiros casos; no terceiro caso, a postura integradora do indivíduo, apoiado nas características em comum que possui com a identidade brasileira o ajudam a se sentir parte de um contexto maior. As diferentes posturas de cada um deles os ajudam a perceber menos ou mais barreiras na comunicação.

A chamada Globalização e com ela o advento das Novas Tecnologias da Comunicação e a Informação (NTCI) trouxe mais velocidade, conectividade, proximidade virtual, multidirecionalidade, informação, mas também mais movimentos migratórios e barreiras culturais à comunicação, conflitos e nem sempre mais comunicação, está última entendida no sentido de colocar um significado em comum e não apenas informar.

Tentamos mostrar assim a importância da valorização das historias de vida das pessoas estrangeiras (neste caso dos cubanos) que moram no Brasil para a formação e reformulação da sua identidade individual como imigrantes, assim como verificar sua contribuição à formação da identidade e marca país Brasil.

Barreiras Culturais à Comunicação

Em pesquisas anteriores e já publicadas (ver livro publicado pela Atlas, Marketing Pesoal.com, sua estratégia dentro e fora da Internet)foi desenvolvido por este autor o conceito de Barreiras Culturais à Comunicação, entendidas como o conjunto de fatores, de ordem simbólica ou concreta, de origem cultural (entendendo a cultura como estilo de vida), que vai além das diferenças idiomáticas e que pode dificultar a comunicação entre pessoas ou organizações de diferentes valores, etnias, idade, gênero, países, povos, regiões etc. Aplicado ao presente estudo, esse conceito pode servir como uma “lupa” para visualizar alguns dos desafios e barreiras culturais à comunicação que enfrentam os imigrantes cubanos no Brasil e como estes têm um reflexo na visão e interpretação dos mesmos do Brasil, antes de conhecer o país e depois de morar nele.

A pesquisa

Foram entrevistados 10 cubanos residentes no Brasil. Alguns dos principais resultados obtidos através de questionário e a observação. Os resultados os mostramos a seguir:.

Todos concordaram em ter uma visão positiva do Brasil antes de chegar (10 Pessoas para um 100%). A imagem que tinham do Brasil pela TV, rádio, cinema e outros veículos de comunicação não se corresponde com a realidade que encontraram ao chegar ao Brasil(10 Pessoas para um 100%).

Se referindo aos atributos negativos do Brasil para os imigrantes cubanos, (90%), eles mencionaram a pobreza, corrupção, violência e preconceito, seguidos num patamar menor pelo caráter indireto da cultura brasileira. Este último aspecto se refere à característica do brasileiro de em determinadas situações não definir sua postura, “ficar em cima do muro” ou não falar de forma clara o que realmente deseja.

Nos aspectos positivos do país para os cubanos entrevistados, mencionaram, em primeiro lugar o fato de ser um país grande, mencionado por 80% das pessoas; seguido de calor humano com 6 pessoas (60%); ter diversos estados, cultura maravilhosa, com 5 pessoas (50%); seguidos de culinária diversa, oportunidades de negócios e liberdade com 4 (40%) e por último, mencionados apenas por 3 (30%) pessoas, biodiversidade e outra forma de resolver os problemas.

Destaca-se neste caso que os pontos negativos levantados são menores (50%) que os aspetos positivos (90%) ao referir-se ao Brasil. As barreiras culturais à comunicação mais mencionadas pelos participantes da pesquisa foi a do etnocentrismo (entendida como a rejeição por parte dos brasileiros a seu país de origem) mencionada por todos, seguida do não conhecimento da língua com 80% e religiocentrismo (entendido como a rejeição às religiões trazidas de Cuba) mencionada por 70%; seguida da tendência à procura do resultado imediato, típica do brasileiro, atitude diferente do cubano, que busca resultados a mais longo prazo, com 60%.

É claro que as opiniões colhidas neste estudo inicial devem ser validadas com uma amostragem maior, assim como verificar as opiniões de imigrantes de outras nacionalidades que moram no Brasil. Este estudo é apenas uma primeira aproximação a um problema complexo e oferece um primeiro diagnóstico nada absoluto. Também é preciso ver essas opiniões no seu contexto histórico social e político atual, e não como algo definitivo.

Em janeiro de 2017 acontecerá em Havana, Cuba o III Encontro Internacional, CUTLRUA , COMUNICAÇÃO, MARKETIG E COMUNIDADE , que entre outros temas abordará estes assuntos.

NOTA: Este é um fragmento do artigo científico O olhar do outro: Barreiras Culturais à Comunicação, Novas narrativas e marca país Brasil , que relata toda a pesquisa publicado na revista científica Hermes e accessível neste link: http://www.fipen.edu.br/hermes1/index.php/hermes1/article/view/242/0