Peça com atriz Peruana em São Paulo: Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira

0

Enquanto o público entra e acomoda-se nas cadeiras do espaço da SP Escola de Teatro, a atriz peruana Marba Goicochea realiza movimentos sutis de dança ao equilibrar um pequeno balão. A cena que se segue imediatamente após essa imagem poética é o que norteará a encenação da Cia Bruta de Arte: discutir a ausência de afeto, o estado crescente de intolerância nas relações entre as pessoas e as memórias que nos movem no mundo.

“… começou com uma gota d’água.”

A peça conta a história de um grupo de nove amigos que se reencontram após 10 anos e, em pouco tempo de convivência, vem à tona diálogos cercados de lembranças boas e ruins, que provocam no grupo a eclosão de revelações, angústias, invejas e mágoas. Não bastassem esses conflitos, o cenário do encontro fica nas Ilhas Galápagos, local escolhido após um terremoto.

O enredo avança e em diversos momentos o público é provocado com a dúvida: mas tudo ali é, de fato, real?  Ou será que não passa de uma encenação? Por que o encontro acontece em lugar tão distante e exótico? Qual a razão que os leva a confrontar o comportamento dos animais que vivem no arquipélago com seus próprios valores?

A dramaturgia trás as respostas à conta gotas: palavras, frases e imagens ajudam ao público que estiver bem atento a navegar por essa experiência sensorial de lembranças reais ou ficcionais. Uma vez que a proposta dos quatro dramaturgos (Ana Pereira, Angela Ribeiro, Roberto Audio e Washington Calegari) também perpassa pela relação que se tem com a memória e as conseqüências de sua perda, o texto trabalha com cenas fragmentadas, aparentemente sem conexão entre si, mas que alcançam certa unidade nessa difícil tarefa de alinhar fluxos de pensamentos e citações das personagens.

“Não existe revolução sem que um fenômeno não aconteça dentro de você.”

A concepção de direção de Roberto Audio transita no que se pode apreender entre o cotidiano das relações em oposição a construções oníricas, reforçadas pela direção de movimento de Fabiano Benigno. Assim, as personagens mergulhadas numa espécie de simulacro, são observadas pelo público e, por vezes, inverte-se a situação e o público torna-se objeto de estudo. E, na medida em que as personagens vivenciam determinadas lembranças ou encontram-se no limiar de sentimentos destituídos de afeto, sofrem espasmos, desequilíbrios e contorções corporais.

Essas ações físicas colocam o corpo e a voz de cada intérprete em patamares bem distantes do gesto comum e confere beleza e sentido a proposta de apresentar comportamentos instintivos e primários nessa comunicação com outros seres, embora o uso desse ritual em diversas cenas dilua sua força expressiva ao longo do espetáculo.

O desenho da luz realizado por Paulo Maeda explora adequadamente os poucos recursos de iluminação disponíveis na sala. Com recortes secos, sombras e momentos de luz difusa, há uma perfeita integração com o discurso de aparente irrealidade e sonho.

Da mesma maneira a sonoplastia realizada por Érico Theobaldo, divide-se coerentemente em duas leituras precisas: primeiro pelo uso da trilha sonora ao utilizar hits da cultura pop e integrar claramente lembranças das personagens e público à proposta dramatúrgica. E num segundo momento pelo recurso da música incidental (feita exclusivamente com instrumentos) e que potencializa estados de espírito e dialogam perfeitamente com a atmosfera perturbadora criada por Roberto Audio.

O espetáculo “Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira” convida o público a questionar o quanto precisamos agir para que as partículas de desentendimentos possam dissipar-se e, assim, enxergarmos a possibilidade de entendimento com o outro, afinal “… é preciso ter empatia com o tempo que surge.” 

Assista ao teaser do espetáculo: www.youtube.com/watch?v=peZ1NavGn5o

SERVIÇO:

Quantos Segundos Dura uma Nuvem de Poeira

www.ciabrutadearte.com –  www.facebook.com/ciabrutadearte

 Onde: SP Escola de Teatro – Praça Franklin Roosevelt, 210 – Consolação

           Telefone: 3775-8600 – Estacionamento ao lado do teatro: (R$15,00)

Temporada de 06 de maio a 26 de junho de 2017

Sábados, às 21h; domingos, às 20h; segundas, às 21h

Duração: 90 minutos – Recomendação: 14 anos

Ingressos: R$ 20,00 –  Capacidade: 60 lugares

Horário da Bilheteria: apenas no dia da apresentação, abre com 1h de antecedência

Fonte: Diario Zona Norte