A historia do festival Soy Latino vai além dos shows e a gastronomia

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Quando pisei pela 1ª vez o Memorial de América Latina, na Barra Funda, uma forte emoção tomou conta de meu coração.

Por Ives Berger

Há quem fale que o Memorial é um grande bloco de cimento, falta verde! escutei mais de uma vez, no entanto, desde o primeiro dia que entrei, entendi o conceito de Oscar Niemeyer, e, quando vi a escultura da mão na praça cívica, ficou tudo mais claro.

Decidi nesse momento que um dia iria fazer um festival nesse magico lugar.

Sou um peruano imigrante e Brasil é minha segunda imigração, da qual já tenho 17 anos, a 1ª foi na Europa por 11 anos, sempre envolvido e trabalhando com nossa cultura latino americana, nossas raízes, das quais sou profundamente orgulhoso.

Conheço, na pele, no suor, nas lagrimas e alegrias, os caminhos que o imigrante passa e acredito que a cultura tem um poder transformador.

A primeira vez que descobri isto foi num episodio de xenofobia em Praga, que teve como consequência a morte de um amigo muito próximo, um estudante de Sudão.

Nessa oportunidade, os estudantes nos juntamos e por 3 longos dias de frio, acampamos na praça principal de Praga protestando com arte. O resultado foi além do esperado, a população que nos tinha como estranhos, paravam e interagiam conosco.

Foi um aprendizado e tanto.

Após me estabelecer nesta caótica e desafiadora cidade chamada São Paulo, me surpreendi com o que achei, por incrível que pareça, muita gente, pouco ou quase nada conheciam de seus países vizinhos.

E o pior, até casos de racismo contra parte de nossa comunidade aconteciam, e, infelizmente ainda acontecem.

Como é possível isso acontecer no Brasil? era minha pergunta constante e a de meus amigos que moram fora, os quais escutavam igualmente surpreendidos.

Como diretor deste portal, fui atrás de depoimentos destes casos, ao fim das entrevistas, decidi agir, esse mesmo dia criei em minha mente, mas sobretudo no meu coração, nosso Festival Soy Latino.

Nestas 5 edições, além de crescer em público e reconhecimento, levo na minha alma historias que só se escrevem com amor incondicional.

Aqui alguns exemplos

Santa Mala são três irmãs mc’s bolivianas que integram o coletivo Latam Esquad. Produzem um rap interventivo, “de minas”, “de bolivianas”, “de barrio”, que preenchem com a força das suas realidades.

Elas trabalham em costura, no seu dia a dia costuram além de roupa, costuram seus próprios sonhos que levaram ao Soy Latino em duas oportunidades.

Santa Mala na 5ª edição do Soy Latino

A cantora Celina Castro de El Salvador, nascida em Santa Tecla, cidade próxima à capital salvadorenha San Salvador.

Celina segue no Brasil dando continuidade à carreira, iniciada em sua terra natal. 

Celina Castro na 4ª edição do Soy Latino

 Hanser Ferrer nascido em Havana (Cuba) em 1988, iniciou seus estudos de piano aos 8 anos de idade e se formou como pianista profissional em 2006.

Radicado em São Paulo desde 2008, vem se destacando como pianista, arranjador e diretor musical.

Hanser Ferrer na 5ª edição do Soy Latino

Perceberam?

As 3 fotos tem algo em comum, em todas elas, os artistas estão com seus filhos no palco.

É disso que o Festival trata-se, de orgulho, de dignidade, de historias de continuação.

De que o brasileiro saiba que somos iguais a eles, que todos somos latinos, maravilhosamente diferentes e parecidos ao mesmo tempo.

O festival dura um dia, 10 horas para ser exato, 10 horas onde rimos, dançamos, nos abraçamos.

Quando voltamos para casa, esse sentimento nos dura o ano todo e a cada ano renasce.

Detalhe importante, a última edição teve 12 mil pessoas em rotativo, das quais, mais de 70% eram brasileiros.

Ansiosamente espero ver de novo todas essas pessoas que como os artistas, gritam com orgulho,

SOY LATINO

Nesse grito os sotaques se misturam, mas sobretudo, são os corações que se unem.