Bolivianos viram maior comunidade estrangeira em São Paulo

0

A chegada de bolivianos cresceu cinco vezes desde 2010, tendo como principal destino a cidade de São Paulo. São mais de 250 mil, entre famílias cadastradas oficialmente e imigrantes irregulares.

‘Eles já chegam aqui na casa de alguém, na casa de um familiar, na casa de um amigo. Eles são acolhidos por alguém que já conhecem’.

‘Dentro de casa havia uma regra: aqui dentro você não fala português, aqui dentro você fala espanhol. Aqui é a Bolívia, lá fora é o Brasil’.

O número de imigrantes bolivianos no Brasil só aumenta. No principal reduto, a cidade de São Paulo, são mais de cem mil. De 2010 para cá, o número registrado pela Polícia Federal cresceu cinco vezes. Os bolivianos ultrapassaram os portugueses e se tornaram o maior grupo estrangeiro na capital paulista. 

A estimativa é de que o número real supere 250 mil. O padre Paolo Parise, diretor da Missão Paz, que acolhe imigrantes e refugiados, destaca que a quantidade de estrangeiros irregulares é muito maior. 

‘Eles me diziam ‘não, eu já volto para a Bolívia, vou ficar só dois ou três anos, então nem precisa, vou ganhando um dinheirinho para voltar e não vale a pena’. Isso faz com que tenhamos um grande grupo de pessoas em situação irregular’, diz o padre.

Em geral, os bolivianos trabalham com costura e comércio popular na região do Brás, no Centro de São Paulo. Agora, eles também vivem em bairros das zonas norte e leste. Essa ocupação é refletida na fé.

Há 18 anos, uma igreja evangélica boliviana foi fundada. Hoje, são 14 na capital paulista. Além do espanhol, um dos cultos é realizado em Aimará – idioma indígena e uma das línguas oficiais da Bolívia – como conta o pastor Moisés Velasco.

‘É um idioma muito antigo, é um idioma milenar. É extraordinária a origem dele, tanto o aimará como o quéchua. Aqui não temos culto em quéchua, mas temos em aimará. Às sete da manhã é o nosso culto em aimará. Se você vem um dia nesse culto, você vai ver que a maioria das pessoas que estão são anciões’.

Há 54 anos no Brasil, a aposentada Mari Torrico percebeu esse aumento. 

‘Quando eu trabalhava não era como agora. Agora vem muito boliviano. No meu tempo éramos poucos e agora tem bastante’, relata.

Mari vende artesanato na Praça Kantuta. A tradicional feira boliviana é realizada todo domingo. Ao lado, fica a barraca de Claudia Karen. No Brasil há onze anos, ela vende salgados tradicionais.

‘Esse chama Tucumana. Ele vem recheio de carne, batata, ovo… Tem tipo a massa do pastel, mas é mais grossinha’.

Além do idioma, os bolivianos enfrentam preconceito. 

‘Eu já vi e já presenciei isso: tratando o paciente de uma forma muito áspera, muito bruta. Você vê que entra outra pessoa e você vê que o trato é um pouco diferente’.

‘Tratam mal, não dão oportunidade de trabalho, de estudo. Então, eles se sentem pessoas que invadindo o país do outro. Falam isso como se fosse uma ofensa e na verdade é a minha nacionalidade’.

‘Eu estava buscando um imóvel para mim e eu vi no computador da pessoa ‘MENOS PARA BOLIVIANO”.

Contra a xenofobia, o grupo de dança folclórica ‘Salay Bolivia’ faz apresentações típicas em escolas de São Paulo. O objetivo é ensinar a cultura e combater o preconceito. 

‘Quem é que não sofre preconceito no Brasil. Eu sou um imigrante, vocês são descendentes, não são brasileiros de raiz. Se a gente parar para debater, eu sou imigrante, mas você também é, é filho de imigrantes’, opina.

O grupo é coordenado pelo costureiro Gonzalo Vazquez. Há 15 anos no país, ele afirma que construiu a vida no Brasil.

‘Dentro da mala, eu coloquei o que eu tinha. Acima de tudo eu coloquei sonhos, esperanças, de sair do meu país para outro que nem conhecia e naquela época eu nem falava português. Então saí com uma ilusão e esperança de ter melhores dias de vida’, desabafa.

Do CBN